O Cortiço e uma viagem ao Brasil Imperial do século XIX

 Uma viagem ao Brasil Imperial do século XIX


Sobre o livro

O romance é uma narrativa de época. Contando histórias e causos da vida cotidiana do então novo bairro, seu crescimento e desenvolvimento. Junto a esse relato, ocorrem outros da vida da cidade e de sua população. Com um vocabulário de época, muitas palavras novas irão aparecer enquanto algumas serão bem diferente ou muito estranhas, das usadas nos dias de hoje, evidencia o momento histórico.

Outro ponto abordado pelo autor é a passagem de diversas situações comuns no período. Adultério? Sim, ocorriam. Traições? Comuns. Baderna e boemia? Mesmo longe da Lapa, não era desconhecida. Corrpução, inveja e revolta de algumas personagens? Sim, as personagens têm sentimentos e o autor enfatiza eles. Enfim. Uma típica telenovela brasileira de época em forma de romance escrito.

A narrativa ocorre desde antes da construção do Cortiço, que dá nome ao livro, quanto durante sua existência. As personagens representam diversas situações onde a burguesia tenta se manter de aparências e precisa enriquecer e para sobreviver explora outras personas da vida. As relações pessoais, as situações casuísticas e os encontros e desencontros dessas personagens fazem do romance uma viagem histórica ao Brasil Imperial no século XIX onde as Elites ditam as leis mas também aparecem os militares, os novos burgueses que tentam enriquer, e os portugueses que queriam fazer fortuna e voltar a Portugal, todos juntos. 

Em contra partida, os escravos, a nova população de pessoas livres, perto da Lei do Ventre Livre (1871) apesar de anterior a Lei do Sexagenário (1885), mostra escravos, negros, caboclos, mamelucos e cafusos como personas representadas. Todos são participantes do romance da sua forma e breve pensamentos, seja das personagens principais ou dos essporádicos. A personagem mais importante da obra, obviamente, é o Cortiço, em suas diversas formas de apresentação. Onde a vida da burguesia de alguns espaços era enobrecisa, enquanto o mesmo tipo de locação também era o espaço da degradação e aviltamento social que a população menos favorecida da época, precisava se sujeirar, para sobreviver. 

Apesar da visão do autor ser específica: a classe média, a parte da sociedade que se esforça pra caramba para construir suas vidas e patrimônio, era o foco. Mesmo que para isso precisasse mostrar as mazelas e contra pontos da riqueza aparente de alguns participantes - o termo classe média ainda não estava no vocabulário de então - .

E o que o romance tem de relação com esses fatos históricos? A contextualização das ruas e subregiões do bairro que hoje, mesmo com nomes diferentes, mostram a vida cotidiana da cidade no período do 2º Império que foi de 1840 a 1889.

O livro mostra a realidade, nua e crua urbana da capital, onde a aristocracia em queda e da nova e ascendente burguesia convivem e se detestam. Uma mistura de aristocratas educados e letrados com burgueses semi analfabetos ignorantes que só pensam em enriquecer. Não que isto esteja errado, mas aparece desde os meados do século XIX no dia a dia da sociedade.

Narra diversas histórias principais e secundárias, onde o cotidiano e o ambiente são os detalhes ricos e vivos da história e por ocorrer na Capital, tem alguma influência respingada, da corte, mesmo que ela não apareça, propriamente dita.

Com essa quantidade de informações históricas ficam algumas curiosidades: e o livro? Que fim teve? 

É uma das leituras obrigatórias e recomendadas para os estudantes do Ensino Médio para realizar as provas do Enem e de alguns vestibulares espalhados pelo país.

Recomendo mais pela riquesa de detalhes do período do que pelo romance em si. O que não muda muito em relação a outras obras mais modernas. Em relação a época, é uma peculiar viagem a um passado nefasto porém importante para a construção da sociedade brasileira.


Curiosidades e Realções históricas dos romances: O Cortiço, Os Sertões, Capitães de Areia entre outros...

Para quem fugiu das aulas de história do Brasil, lá na educação básica... 

Século XIX

0) A independência do Brasil ocorreu em 1822 e o autor, Aluísio Azevedo, era de São Luís, no Maranhão. Viveu de 1857 até 1913 (as 56 anos) quando morreu em Buenos Aires, Argentina. Era um diplomata brasileiro, escritor, caricaturista e jornalista, ou seja, uma pessoa altamente letrada, culta e criada pela elite da época e para os padrões, a qual seu romance retrata, um conhecedor da realidade.

1) Até 1809, não havia imprensa no Brasil, pois a corte portuguesa impedia o letramento via politica pública de exclusão. Só as elites tinham acesso a leitura até então.

2) O romance 'O Cortiço' ocorre em Botafogo, dito "um novo bairro" da Capital, a cidade do Rio de Janeiro. Porque Novo bairro? 

3) Esse romance ocorre depois do período conhecido como Guerra do Paraguai, que foi de 1864 a 1870.

4) Foi depois da Guerra do Paraguai que as primeiras favelas surgiram.

5) Foi a partir de promessas do Governo Imperial, ao promoter aos futuros militares vitoriosos dessa guerra, terras e casas. Como conhecemos as mazelas da nossa política, historicamente, nossas elites, além de mentirosas, também gostam de criar promessas incumpríveis. 

6) Foi, a partir dessas promessas, que o morro da providência, é considerada a 1ª favela do Brasil. Hoje, ele faz parte do centro expandido da cidade do Rio de Janeiro.

7) A região, apesar de não ser tão próxima ao Caes do Valongo, é históricamente conhecida pelo desembarque do contrabando de negros escravisados vindos da África, após o tráfego negreiro ser combatido pela marinha britânica.

8) Numa rápida contextualização histórica, os termos "classe média" e/ou "classe trabalhdora" ainda não haviam se estabilizado no vocabulário por alguns motivos específicos.

9) Classe Média fora definida por Marx, no Manifesto Comunista de 1848, cuja primeira publicação ocorreu em 21 de fevereiro do mesmo ano.

10) A relação industrial inerente ao manifesto ocorreu na Europa com mais força, e na Russia Kzarista, pela proximidade, mas era aplicável a outros territórios como os Estados Unidos no pós guerra civil (1861 a 1865) e ao Japão Imperial (1868 até 1945).

11) Como o Brasil ainda era um país agrário, escravocrata, a classe média era composta ou por comerciantes ou filhos de burocratas da época, ligados à Corte e a Administração pública do Governo Imperial.

12) Enquanto a maioria da população era de escravos, o primeiro Censo Demográfico Brasileiro ocorreu em 1872, quase 20 anos antes do livro ser publicado. 

13) A lei Áurea, que aboliu a escravatura é de 1888, enquanto o golpe militar que desituiu a monarquia para a velha república, ocorreu em 1889.

14) A primeira constituição brasileira, real, depois da Outorgada por Pedro I, é de 1891, contemporânea ao lançamento do livro.

Século XX

15) Depois de quase 130 anos da publicação original, a realidade era bem diferente do que temos hoje, porém a convivência entre diferentes classes sociais nos mesmo espaços, era uma constante, e a existência de favelas em Botafogo, uma realidade que perpassou gerações.

16) A Favela/Comunidade do Santa Marta fica no meio do bairro de Botafogo e tem um dos mirantes mais visitados por turistas durante os verões cariocas. 

17) O termo favela vem de uma planta do sertão da Bahia, reconhecida pela Guerra de Canudos, onde passaou a nomear o Morro da Providência no Rio de Janeiro e, depois, outras moradias simples. Durante a Guerra de Canudos (1896 a 1897), existia um local chamado Morro da Favela na região dos combates. O escritor, Euclides da Cunha (1886 - 1909), descreveu esse morro no famoso livro Os Sertões de 1902, contemporâneo ao Cortiço.

18) A Reforma de Pereira Passos, que redefiniu o centro do Rio de Janeiro, aos moldes de Paris, da Belle Époque (1871 a 1914), ocorreu entre 1903 e 1906.

19) Os velhos Cortiços do centro, que foram demolidos, e levou à política pública da vacinação em massa por Osvaldo Cruz, que acarretou na Revolta da Vacina, ocorreu cerca de 15 anos depois do livro ser publicado.

20) A Educação Pública, como a conhecemos, não existia então, mas o Colégio Pedro II, foi criado para educar a Elite da capital na velha república.

21) Pedro II (1825 a 1891), que dá nome ao Colégio, morreu em Paris em 5 de dezembro.

22) A primeira grande reforma ortográfica da lingua portuguesa, no Brasil, ocorreu na década de 1940, durante o Estado Novo de Getúlio Vargas (1882 a 1954).

23) A edição lida, do livro O Cortiço, contém uma situação curiosa: a escrita das palavras, já estava adaptada a Reforma Ortográfico de 1971, quando mudanças importantes ocorreram na ortografia e a queda de diversos acentos tônicos mudaram a escrita padrão.

24) A Legislação Brasileira que proíbe nomear cidades, ruas e outros bens públicos, com o nome de determinadas pessoas, é de 24 de outubro de 1977, sancionada pela Lei Federal nº 6.454/1977.

25) As constituições Brasileiras são dos anos 1824 (Outorgada) 1891 (Velha República) , 1930 (Getúlio Vargas), 1945 (Desenvolvimentista), 1968 (Ato Institucional 5º onde a ditadura militar restringiu os direitos civis da época), e 1988 (onde a volta aos direitos civis, eleições livres e direitos humanos, foram as bases, junto das campanhas "Diretas Já", pelo fim da Ditadura Militar).

26) Em menos de 100 anos, o Brasil teve 2 sangrentas ditaduras, ambas durante o Século XX. 

27) Para entender melhor como a escrita foi bastante alterada e saber mais como certas palavras eram escritas, veja a Constituição Brasileira de 1891, do século XIX, e verá que mesmo diferente ainda assim é possível compreender o que está escrito neste documento. 

Século XXI

28) A outra mudança ortográfica é de 2009, quando houve um tentativa de aproximar a forma de escrever, presente nos países Lusófonos, uma unificação dessas "nações amigas".

29) O termo "Nação Amiga" foi usado pela corte portuguesa quando chegou ao Brasil, fugindo das Guerras Napoleônicas, quando elevou a categoria do Brasil, de Colônia para País, algo que oportunizou a vinda dos comerciantes Britânicos, negociar seus produtos industrializados com o Brasil.

30) Foi no período pós vinda da corte portuguesa que a expressão "os produtos brasileiros eram tão ruins, que os de fora são melhores" e disso surgiu o comportamento 'viralatista' do brasileiro, sentimento de inferioridade em que o próprio povo se coloca de forma voluntária em relação a outros países, caracterizado pelo escrito Nelson Rodrigues em 1958.

Após todas as considerações...

Enfim, os livros citados são verdadeiras viagens cheias de contextos e situações que configuram como foi a formação da sociedade brasileira durante alguns séculos. Após a independência, a construção da história de um povo, precisa desses romances históricos para mostrar, por onde passamos, para chegar onde estamos.

Curtir a leitura de romances clássicos, no período onde a população passa mais tempo nas telas e redes sociais do que se construindo moral e intelectualmente, é um ato de rebeldia ao sistema vitente, pois além dessa obra estar em domínio público, é uma forma de visitar o Rio de Janeiro, do século XIX, antes da urbanização acelerada que o século XX causou no país e entender como fomos criados culturalmente.

Boa leitura.
Até o próximo livro.

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