As “pequenas” aventuras de Sherlock Holmes
Pelos gêneros literários existentes, a figura do narrador é a peça chave para a construção de qualquer história. Esta figura pode ser recortada entre: o narrador testemunha, que escreve em 1ª pessoa e vive o que acontece e aconteceu; o narrador observador, que não influencia em nada mas vê as coisas e narra em 3ª pessoa; e o onisciente, pois sabe de tudo que ocorre na história e na mente das personagens mas não influencia nem vivencia o desencadear dos fatos.
Entendo os contextos...
Artur Konan Doyle, autor dos livros de Sherlock Holmes, era médico por formação no final do século XIX e início do século XX. Atuou como oftalmologista no início da formação mas não obteve sucesso porém, dessa escolha de medicina, foi mais assertivo em sua atuação médica durante A Grande Guerra Boer, ocorrida na região de Cabo, África do Sul, entre Franceses e Holandeses com o governo Inglês na época que ocorreu. Devido ao tempo livre, desenvolveu o personagem Sherlock Holmes baseado na figura de um antigo professor da escola de medicina tendo esta persona se tornado uma das personagens ficcionais mais famosas da literatura inglesa.
O Livro em questão, “As aventuras de Sherlock Holmes”, é uma compilação de pequenos casos escritos entre os anos 1891 e 1892 e publicados na revista Strand Magazine. Narra as situações do dia a dia do investigador, ao abarcar do 3º ao 14º caso, de um total de 64 casos, publicados pelo autor, na ordem de escritos. O livro começa com a narração de Watson, amigo médico de Holmes, sobre alguns casos inusitados e curiosos do detetive.
Quando não se sabe que o autor era médico de formação, Dr. John H. Watson, também poderia ser apenas uma figura complementar, que gera equilíbrio da narrativa, entre o que Holmes declara ser seus pensamentos e forma de descobrir as pistas dos casos enquanto pontua o que os leigos de investigação pensariam como leitores. Durante os casos do livro o médico atua na perspectiva de narrador para que os leitores se sintam representados na trama, mas este também se torna a peça de registro dos casos de Holmes durante muitos anos. Ele não altera a forma de pensar e investigar de Holmes mas o acompanha regularmente para entender o que pretende fazer e pensa sobre os problemas de cada caso.
O que o livro conta?
Watson, em parte das histórias, era um jovem solteiro, em início de carreira, enquanto Holmes, mais ou menos da mesma idade, era relaxado, boêmio e fumante. Os dois conviveram durante muito tempo na casa de Holmes. Quando Watson se casou, este deixou a casa de Holmes para morar com a esposa mas, era frequentador assíduo da residência do investigador. Nessas histórias não é relatado se Holmes fora casado ou tivesse uma companheira/amante ao ponto deste se casar.
Londres é uma cidade do século I – ano de 43 d.C. – fundada por romanos, durante o auge do império. A construção de estradas de tijolos foi realizada por uma significativa parte da Inglaterra, e este detalhe aparece em diferentes narrativas de outros autores, antes e durante Idade Média inglesa.
A parte interessante das narrativas de Holmes é a riqueza de detalhes que o autor dedica aos espaços visitados, descrevendo a Londres do século XIX com precisão de ruas e locais. Como a burguesia e os nobres britânicos estão envolvidos em diferentes casos de corrupção e roubo, e como a Scotland Yard, não era boa nas investigações de casos estranhos, ficando sempre a cargo de Holmes as soluções deles.
A riqueza dos contos ocorre na descrição dos bairros, ruas, detalhes das construções, estações de trem, envio e recebimento de telégrafos, a publicação de jornais diários, panfletos, vagas de trabalho em agência, bancos, cofres, terrenos, estradas, carruagens, vestimentas, biotipo das personagens, e outras curiosidades da época. Mesmo sendo superficiais, era nos detalhes o motivo suficiente para Holmes achar alguma coisa que estava fora do local e desse continuidade às investigações.
Alguns comentários sobre a peculiaridade dos casos era a ponta do problema, este tendo começado a aparecer nos jornais ou nas colunas sociais deles. Poderiam começar nas matérias do espaço policial, relatando o que a investigação oficial realizara e alguns detalhes jurídicos que poderiam salvar ou comprometer os participantes dos crimes. A postura do investigador era regularmente peculiar e quanto mais comum e trivial fosse o caso investigado, mais pistas apareciam e mais fundo Holmes se adentrava neles.
Dentro os 12 casos descritos no livro, em pelo menos 3 deles era possível saber quem era o cumplice do ladrão e/ou o culpado do tal crime, antes do final, faltando apenas a descrição de como as coisas ocorreram e isso cabia ao detetive. Em diferentes situações, Holmes já tinha a conclusão do caso antes mesmo da Scotland Yard chegar ao seu veredicto e muitas vezes, a própria Scotland Yard tinha as pistas que precisava mas o policial não conseguia associar sequencia de acontecimentos às peças descobertas. Esse é o humor britânico na sua essência de sutileza e beleza sem sair da compostura.
O mais emblemático dos casos é o fato de revelarem uma Inglaterra cheia de problemas sociais que tinha dificuldades em se resolver por seus cidadãos, onde aparência e circulo sociais eram mais importantes que uma vida digna, mesmo que as regras não fossem quebradas. A aparição de ricos falidos, generais das forças armadas, pessoas que ganharam fortuna e se tornaram escusas, a existência de um grupo de pessoas da Ku Klux Klan dos EUA, e algumas outras figuras que poderiam fugir da Inglaterra para a Prússia, a Áustria ou a França, para escapar da justiça, era comum.
Casamentos, renuncia fiscal, roubo a banco, assassinato, tem de tudo um pouco e com as explicações de Holmes para cada caso.
Uma leitura rápida, de poucas horas, podendo ser lido 1 conto por dia, para chegar ao final com um gostinho de queiro mais, recomendo pela facilidade e agradabilidade narrativa.
Até o próximo.
Ass.: Thiago Sardenberg

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