3001 e A Odisseia espacial chega ao seu Final...

Continuando a contar uma história do tempo do homem do século XX e das suas visões de como poderia ser o futuro, Arthur Clark, entregou mais um romance digno de outra classificação: de ser mais uma novela mexicana rápida com pouca inovação ou ser enquadrado como um curto seriado americano de pouca expressão que pouco acrescenta. Porém, o que esses recortes significam na prática é que a obra não é nenhum nem outro rotulo momentâneo da época. E independente do rótulo assumido, o que interessa é: a obra é mais uma história de ficção científica escrita no século XX, pelas descobertas científicas, construções geopolíticas e ciência daquela época.

A saga de livros da Odisseia no Espaço, descreve como a sociedade sobreviveu a diferentes períodos conturbados e cataclismas que a humanidade passou. Sendo um reflexo da geopolítica de então (século XX), União Soviética, Estados Unidos, China e Europa estão presentes no contexto geral. E a Guerra fria? Está mais ou menos inserida na obra, o que leva falso fato da sobrevivência da União Soviética um milênio no futuro. Como sabemos, pela história recente do mundo, que o bloco Soviético deixou de existir antes do século XXI começar, e que a China se tornou a então nova potência econômica do século XXI, o romance ficcional, que nasceu da visão futurista de seu autor, se torna, na prática, uma obra de futuro impossível, mesmo que tenhamos tecnologia, parte da tecnologia que pode transformar essa realidade em verdade. Mas os Monolitos não existem na realidade.

Convivendo com a descoberta de um Monolito no lado oculto (ou escuro) da Lua, que assolou a humanidade (retratado no filme 2001), as aventuras extraplanetárias de Heywood Floyd, personagem central dos livros, começam a se tornar um emaranhado de escolhas difíceis onde situações da então exploração espacial humana, imaginada pelos livros, se torna comum. No geral, o Sistema Solar foi “dominado” por um trio de Monolitos que ninguém sabia da existência e sua descoberta, em diferentes pontos, colocou a humanidade na busca do que realmente interessava a si própria: ocupar, literalmente, o sistema inteiro. No melhor dos casos, ocupar os locais possivelmente habitáveis do nosso Sistema no menor tempo possível.

Durante o filme 2001, quando o computador Hal 9000 matou Frank Poole, Heywood Floyd chegou a Marte ao final da aventura, mas, por Frank Poole já estar falecido, sobrava ao autor a oportunidade de construir uma nova narrativa com outra personagem. E em vez de criar uma nova personagem do zero, o que acontece com outros arquétipos dessa obra, é na descoberta do corpo congelado de Frank Poole, por mero acaso, um milênio depois dos acontecimentos originais, que começa o livro pois foi no Cinturão de Kuiper que o corpo de Frank Poole foi resgatado. O Cinturão de Kuiper existe na realidade e a Lua Europa também.

O lampejo de esperança que a humanidade abraça e deseja, sentimento único que a obra lança nos leitores, é como resolver os “problemas” que os Monolitos causaram na sociedade retratada. Mesmo que essa época seja um milênio pra frente. 

A obra se passa em Europa, uma das luas de Jupiter, e na Terra e cobre um novo ciclo de vida de Frank Poole. Depois de ter sido revivo e levado de volta ao planeta este precisa se readaptar, aos costumes humanos, com tudo. Desde a linguagem que usava, as palavras ditas, a convivência com diferentes tecnologias, a personagem precisa se acostumar com as formas de relacionamento e convivência humanidade desenvolvidas. 

Como sua assistente, e futura amiga, é uma estudiosa de períodos passados da humanidade, ela estava acostumada com as diferenças existentes entre sua época e a realidade de onde Frank Poole veio porém, situações de conversas, vocabulário e sotaques são abordados nos diálogos leves e rápidos da construção. Com o suporte de um médico cientista e de um(a) piloto de naves espaciais, suas aventuras ocorrem tentando entender como a humanidade reinventou tantas coisas do passado e evoluiu uma infinidade de outras. 

No futuro é possível viajar ao espaço por elevadores super rápidos e chegar à lua em poucos minutos. A sociedade estava espalhada por diferentes regiões do sistema, em cidades novas e diferentes daquelas que Frank Poole conheceu. Em uma das passagens menos esperadas da obra, era possível ver dinossauros como babás de crianças de berço, na porta de casas, que flutuavam nas nuvens da Terra em cidades suspensas. Aves enormes voavam nos diferentes níveis existentes da cidade vertical tubular construída. Voar de uma região a outra do planeta e voltar ao local de partida era rapidamente alcançado.

Na prática, tudo no futuro é uma caixa infinita de coisas incógnitas, pois é um trabalho muito mais especulativo para o autor descrever coisas inimaginadas do que retratar a realidade existente pois ela é palpável mas o futuro não. Com essa peculiaridade em jogo, a obra se desenvolve no redescobrimento da sociedade por Frank Poole. Como é se relacionar com pessoas mil anos mais novos que ele e como é se apaixonar, ser pai e marido, numa época que ele nunca imaginou viver. 

É um romance com cara de seção da tarde. Tem suas intrigas e detalhes curiosos. Também é uma história de amor entre as pessoas da época retratada. E é uma aventura por diferentes cidades e regiões do sistema solar que a humanidade pensa em ocupar. É uma viagem pelo imaginário de seu autor sobre como poderia ser o futuro humano. 

Termina de forma heroica como as obras ficcionais podem ser, mas não deveriam. Onde a descoberta de sacrifícios é construída aos poucos enquanto o desejo de fazer a diferença se tornam sentimentos explorados, nos detalhes, pela narrativa. O pragmatismo da personagem principal se torna sua maior força motora e a vontade de finalizar o que foi começado por ele, num passado remoto, é o seu impulso final. 

Por ser um livro do século XX tem diferentes detalhes da época que hoje podem ser considerados cafonas ou ultrapassados e não há problemas nisso. O movimento de retrofit em alguns locais, e diferentes obras retrofuturistas presentes no audiovisual atual, estão em uma constante busca da atenção de novos públicos. Como contar novas histórias para um diversificado consumidor recheado de repertório cultural muito diferente do existente na época de sua construção é o desafio da geração. Vale mais pela leitura da aventura e nas inusitadas soluções narrativas que o autor descreve do que o contexto geral criado para sustentar a obra no longo prazo.

Recomendo.
Até o proximo livro.
Ass.: Thiago Sardenberg

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A porcaria das IAs que não respondem o que quero

A função 'muderna' das artes

Contato: um livro de tecnologias e relações humanas regado a fantasias do imaginário